PESCAR NA P-14 - O SONHO DE TODO PESCADOR Imprimir

Sempre que falamos sobre pescaria oceânica, grandes peixes povoam nosso pensamento. Conosco não foi diferente.
Os Primórdios: De início, o que tínhamos eram dados dispersos, provindos de várias fontes, algumas nem

sempre confiáveis. Descobrimos muita gente querendo pescar lá na Plataforma da Petrobrás, outros que já o fizeram e até alguns exagerados apareciam nas conversas, contando "estórias" e histórias, tipo a do Tubarão de 6 metros que ficou vários dias rodeando uma Plataforma de Exploração até o IBAMA autorizar o lançamento de tinta biodegradável no mar. Tudo isto aumenta a adrenalina.

Depois, louvados em pescarias recentes, realizadas por gente conhecida, a coisa começou a ter forma mais definida, tanto a nível de localização e distância, quanto ao padrão dos peixes e ao "calibre" do material. Só essa "massa crítica" já nos animava a montar um grupo pioneiro. 

 

O Plano: Clareados os fatos - e desmistificados os excessos -, começamos a elaborar o plano de ação, complexo porque envolvia o gerenciamento de muitos fatores alheios ao nosso controle, tais como o comportamento do mar, das ondas, do vento, a Lua mais propícia, apenas para citar os mais influentes. Além destes, a coleta de insumos básicos para uma jornada economicamente viável: escolher o barco e negociar um preço justo, a época mais adequada, número de participantes, iscas, o "rancho", elaboração do orçamento global, etc. Concluindo a fase organizatória, definimos data, duração, alimentação, preço individual e, finalmente, partimos para a divulgação.

 

Os Complicadores: Quanto mais aprofundado o estudo, mais forte a dificuldade em definir parâmetros vitais para o sucesso da pescaria, entre os quais a questão do controle da bebida alcoólica, a alimentação mais adequada, a acomodação do pessoal para dormir num barco de pesca profissional (geralmente sem o menor conforto porque dimensionado para pequena tripulação), o local do embarque em função das condições marítimas, a segurança à bordo, o estacionamento seguro dos veículos, entre outros.

 

A Venda: Na conquista de adeptos realmente "cai a ficha" do porque muitos tentam e poucos conseguem concluir a contento um projeto destes. O que parecia difícil - planejar, assumir a frente, pesquisar, decidir - estava superado. Mas aí veio a fase que derruba os menos persistentes: aquele pretenso "batalhão" de interessados se reduz à meia dúzia de abnegados por razões várias (data inadequada, preço alto, festa ou doença na família, plantão especial no emprego, falta de grana, etc..). Com isto, o projeto original volta à estaca zero (ou quase isto).

 

As Alternativas: As variáveis possíveis, ou o famoso "Plano B", são acionadas: procura por outro barco mais em conta para um grupo menor, escolher outra data, mudar o lugar de saída, ou simplesmente...desistir. Nesta altura, o Celular já está quente de tanto rodar o mundo.

 

A Negociação: Sondado outro barco com um preço razoável, tudo parecia solucionado. Porém, àquele preço, o Armador exigia embarque em S. Francisco do Sul, no que não concordamos para não submeter nosso pessoal à uma viagem de quase 200 km. de ida, com a agravante da volta no final do Domingo. Uma loucura chegar em casa, todo sujo, cansado e de madrugada...Naquele momento da negociação, parecia o fim do plano.

O Acordo: Voltamos a contatar o primeiro Armador, que tem 8 barcos similares. Este ofereceu outro barco mais econômico, embora menos confortável. Refeitos os cálculos com o novo custo, para um grupo menor, voltamos a contatar todos os interessados, expondo a situação e sinalizando preço um pouco mais alto por pescador. Seria "pegar ou largar". Todos toparam.

A Viagem: Segundo as previsões meteorológicas, lá teríamos boas condições marítimas, mas o vento seria mais intenso ao Sul de Floripa, o que nos fez embarcar em Bombinhas, num barco camaroeiro de 22 metros de comprimento e 70 toneladas de peso. Saímos pelas 20 horas, com o Vento Sul um pouco acima do previsto. Alguns deitaram e outros, mais afoitos, lançaram iscas de corrico para tentar a sorte. Depois das 02 horas da madrugada, o Capitão informou que já era visível ao horizonte o clarão provocado pela chama permanente da P-14, oriunda da queima de gás que emana do processo de prospecção. Isto que ainda faltavam 34 milhas para chegar lá. A partir dali, nem precisava mais de bússola ou GPS, tal a intensidade da crescente "estrela-guia".

O Primeiro Peixe: Às 06:10 hs., já entrando na área de manobra do complexo petrolífero, a carretilha do Paulo cantou uma linda canção, anunciando o primeiro "sinal de vida" naquele imenso mar, já crespo e agitado pelo vento inclemente. Atum embarcado, fotos batidas, continuamos no ritmo de 9 milhas horárias até chegar à torre da Plataforma.

A P-14: Instalada a 102 milhas da costa de S. Francisco do Sul, num mar de 162 metros de profundidade, tendo por apoio fixo um "navio-cisterna" à meia milha de distância e uma bóia de atracação para grandes petroleiros. As estruturas formavam um triângulo perfeito e suficientemente afastado uma do outra para evitar o alastramento de eventual sinistro. Cada uma tem seu próprio heliponto, permitindo assim que o helicóptero pouse em qualquer ponto do mar, pois a bóia é permanentemente assistida por um rebocador, também com seu heliponto e que faz a conexão da mangueira que realiza o transbordo do petróleo do cisterna aos transatlânticos. Interessante é a chama que se projeta sobre o mar, com uma labareda de uns 10 metros de comprimento, num barulho ensurdecedor que lembra a turbina de um Boeing em alta rotação. Seu forte calor é sentido no rosto à quase uma centena de metros de distância.        

 

A PescaCom aquela água azul, a cabeça "mal-dormida" a ver potenciais peixes em cada gota do oceano, nada mais justo que botar a linha na água. Foi o que fizemos, primeiro na rodada, tanto com Jumping Jig quanto com iscas naturais de Lula e Sardinha. O barco era conduzido próximo às estruturas metálicas, onde o peixe dava sinal nas linhas. Inicialmente alguns pequenos Dourados bateram, depois alguma coisa muito consistente meteu a cara com tanta resistência que abriu um anzolão 10/0 do Baeter. Certamente não era um peixe inferior a 50 quilos. Mais Dourados, alguns maiores. Isto até o alto-falante da Torre recomendar o afastamento para área mais segura. Noutro ponto, outra captura frustrada pela dentição de alguém muito doido. Pelo diagnóstico, Cavala ou Barracuda, pois foi estrago causado por bons dentes. Até uma isca artificial grande desceu bonitinha e voltou rachada ao meio. Para quem queria diversão, mais Dourados, tanto nas artificiais quanto nas naturais. Decidimos tentar as outras estruturas, a começar pela bóia e seu rebocador. O mar castigava o povo devido ao vento, cada vez mais intenso. Obtivemos autorização para apoitar no rebocador e assim, pescar no estilo Vertical Jig e com linhas boiadas também. Quando os Dourados nos acharam, foi uma loucura. Aí alguma coisa muito grande entrou na parada do João José (sempre ele). Houve luta parelha, mas o gigante fugiu. Também assim ocorreu com o Geraldo, o Miguel e o Marcos. Ou rompia a linha devido às dentadas, ou soltava o anzol mal ferrado. Ao entardecer, frustrados pela complicada ondulação e o vento crescente, procuramos lugar para o pernoite, pois o plano original era pescar durante 24 horas naquela região. Encostamos no navio-cisterna, querendo algum embate de vento que permitisse ao menos um sono tranqüilo. Mas, quem disse que tinha? Nem a poita curta nas correntes que imobilizam o gigante e que lembram as aduelas da Ponte Hercílio Luz deixou nosso "barquinho" de 70 toneladas estável.

A Decisão: Reunido o "conselho-de-guerra", decidimos, por unanimidade, encurtar nossa estada naquele promissor local para apenas 12 horas, com o prejuízo adicional de perder o corrico da volta, que seria feito de dia, como projetado.

A Volta: Navegando a favor da ondulação, a volta foi mais rápida e tranqüila, desembarcando às 07 horas da manhã.

As Lições e as Conclusões:

a) A pescaria lá é viável, porém em época mais estável em relação aos ventos. Não havia nenhuma previsão de lestada para a região.

b) O barco precisa ter mais conforto. O "nosso" tinha poucas camas e nem mesa tinha.

c) O grupo ideal para um barco de 22 metros é de até 10 pescadores.

d) O esquema foi bem montado: cardápio pré-definido para as refeições, iscas adequadas, gelo em grande quantidade, caronas solidárias e carros bem guardados. O que sobrou de alimentação foi doado à Casa-Lar do S. Mônica, num gesto muito bonito do pessoal.

e) O material de pesca que foi levado foi adequado àquela pesca, embora os dentes das Cavalas mereçam mais respeito...

As Próximas: Só quando tivermos um barco mais adequado, material "especial" para as Cavalas e pratos inquebráveis (quebrou o jogo de jantar de Duralex do Juliano, de tanta "cabeçada" que o barco deu).   

Fotos e Filmetes: Caso alguém queira receber e-mail (arquivo meio pesado) com algumas fotos e 3 filmetes da P-14 e de peixes, peça.