Home Relatos de Pescarias A ESTRÉIA NO CHILE

Pesquise no site


Designed by:
A ESTRÉIA NO CHILE Imprimir E-mail

Depois de alguns anos avaliando possibilidades, finalmente surgiu a oportunidade de conhecer a Região dos Lagos, portal Norte da Patagônia Chilena.

A época eleita – meados de Março - estava dentro do período de migração dos Salmões, que voltam ao rio onde nasceram há muitos anos. O ciclo de vida deles se completa quando desovam seus filhotes e depois, morrem, brindando à prole seus restos mortais como primeiro alimento aos que partem para o mar.

 

O local escolhido foi ocasional, entre várias opções, tendo todas em comum o desembarque aéreo em Puerto Mott, a quase 1.000 km ao Sul de Santiago do Chile.

A região é rica em Lagos que se formam do degelo das montanhas. Cada Lago tem um ponto de fuga do excesso d água e tais vertedores formam pequenos rios, que rumam em direção ao Oceano Pacífico.  A água é fria e muito cristalina, geralmente correndo sobre leito pedregoso.

Também compõem a paisagem dezenas de Vulcões e de Cerros Andinos e, nesta época, somente neves eternas remanescem nos cumes que estejam acima dos 2.000 metros. No auge do Inverno, a nevasca cobre toda a colina de acesso também.

A mata ciliar é nativa e composta de variada gama de matizes de cores, algumas lembrando o tom amarelado dos Olmos e dos Plátanos.

No alto dos cumes, já na parte próxima à neve, árvores milenares da espécie Araucária araucana. Noutros, a famosa conífera Fitzroya cupressoides ou Cipreste-da-Patagônia, uma espécie que vive até 3.600 anos.

Em geral, a conservação da Natureza é boa no Chile, assim como a atuação preventiva nas rodovias, que a cada ano sofrem muito com as enchentes oriundas do degelo e das chuvas.

A colonização alemã – estimulada pelo Governo Chileno em 1848 e que teve novos e fortes surtos antes das duas Grandes Guerras -, gerou uma combinação étnica que resultou num Chile com quase 52% de origem européia, 42% de mestiços - descendentes de povos indígenas - e 6% de origem africana. Os descendentes dos europeus estão mais concentrados nas grandes cidades (Santiago e Concepción), mas seus traços são visíveis também nas pequenas Puerto Montt, Puerto Varas e Frutillar, tanto na arquitetura quanto na culinária e nos topônimos.

Nosso campo de atuação, nesta viagem, se limitou à rápida passagem por Santiago, onde visitamos alguns pontos turísticos daquela Capital. Merecem destaque: os dois Mercados Públicos (um tem boa gastronomia, até King Crab, o caranguejo gigante do programa Pesca Mortal), os prédios históricos da Catedral e do Palácio do Governo, que foi palco da morte e derrubada do Governo de Salvador Allende, a arquitetura moderna que começa a tomar forma entre os prédios centenários e as pistas de rolamento muito bem delineadas e conservadas.

Curioso também ver um casal passeando em pleno Centro com um Guanaco, camelídeo pacífico, muito requisitado para fotos com turistas.

Chamou particular atenção a limpeza de todas as vias públicas, cujo esforço de conservação é feito de forma intensiva e amenizado pela louvável colaboração do povo chileno. Na verdade, aquela educação cidadã que nos causou saudável inveja é fruto da cultura européia. Por conta disto, o Chile ostenta, orgulhoso, o título de “menor índice de corrupção do Continente”. Quando o Brasil chegará lá?

Santiago é uma cidade onde circulam quase sete milhões de pessoas diariamente e cujo sistema de Metrô já esgotou sua capacidade. O resultado ecológico e de mobilidade urbana é catastrófico, com índice de poluição do ar muito acima do recomendável e que no Inverno se agrava com o fenômeno da Inversão Térmica, igual à que sufoca nossa São Paulo.

Mesmo assim, estão buscando soluções ecologicamente corretas e, entre elas, mais de 600 km. de ciclovias estão sendo projetadas para aliviar o problema.

Contrastando com essa megalópole, percebemos uma vida bem mais tranqüila na Região dos Lagos, onde a Natureza renova o ar e a paisagem restaura o ânimo.

Foi gratificante circundar parcialmente o gigantesco Lago Llanquihue, que tem 800 km2. de área permanente entre as montanhas. De um lado da boa rodovia, suas águas serenas. De outro, uma seqüência de pequenos sítios coloniais, com floração diversificada e as hortênsias lembrando a região de Gramado. Não por acaso, a cidade gaúcha é considerada co-irmã de Puerto Varas.

Depois que deixamos a orla lacustre, serpenteamos ao longo da margem direita de um pequeno rio de águas rápidas que depois ficamos sabendo, seria “o nosso rio”.  Era o rio Petruhué, cuja missão é desaguar o excesso do Lago Todos Los Santos ou simplesmente, Lago Esmeralda (em homenagem à sua fantástica coloração).

A localização da Pousada (foto anexa) é coisa de cinema: a menos de 100 metros da foz do rio Petruhué com o Lago Esmeralda e a 50 metros da entrada do Parque Nacional que abriga uma “praia” de areias pretas (pura cinza vulcânica), boa para tomar sol, porém imprópria para banho. Dentro desse santuário ecológico estão trilhas que levam ao Vulcão Osorno, cujo pico fica a menos de 20 km. da Pousada.

Cá entre nós: é estranho olhar diariamente pela janela da Ruca e ver aquele monumento, que lembra o imponente Monte Fuji, praticamente no nosso terreno. A semelhança não é mera coincidência, pois ambos são estratovulcões.  O Osorno, com seus 2.652 metros de altitude, é um dos mais ativos do Sul chileno, tendo registro de 11 erupções históricas no período entre 1575 e 1869.

Na verdade, estávamos dentro do Anel de Fogo do Pacífico, entre 12 majestosos Cerros e Vulcões: Osorno, Calbuco, Yate, Pontiagudo, Tronador, Puyehue, Ornopirén, Chaiten, Villarica, Michimahuida, Corcovado e Casablanca. E tinha mais alguns ao Sul do Chile, já na região da Patagônia.

Ao lado de nossa hospedaria, a caminhada de final-de-tarde sobre a lava do Vulcão Osorno propiciava comer frutas silvestres como o Snowberry, a Murta, a Amora Silvestre e pequenas Goiabas.

Enfim, todos devidamente instalados na Ruca Chalhuafe, montamos a estratégia para o “dia D”, quando iniciaria a pescaria. Até ali, tudo ainda muito vago para os ansiosos pescadores.

O ambiente e as acomodações eram boas, mas as refeições deixaram muito a desejar, para nossos padrões alimentares. Já combinamos com o proprietário para adotarmos cozinha à brasileira, em 2013.

Iniciamos a jornada inaugural embarcando na Van, enquanto que a tralha, os botes infláveis e os Piloteiros, eram ajeitados em mais dois veículos de apoio.

Assim, diariamente aquele comboio fugia da área mais encachoeirada do rio Petruhué e nos daria embarque uns 25 km. rio abaixo, num lugar bonito, típico de filmes canadenses ou do Alasca (só faltava o Urso...).

Os botes infláveis são grandes, resistentes e seguros, movidos a braços e pernas (a motorização é proibida). Um par de remos bem castigante movia aqueles mais de 300 kg. de tara bruta. Quando encalhava num baixio, o Piloteiro auxiliava com as pernas, saltando do Catamarã e o suspendendo pelos braços. Coisa para atleta olímpico.

Cada pescador recebeu um Wader – macacão impermeável e térmico, para suportar bem os embarques e desembarques do inflável. No rio, ninguém desembarcava, pois a correnteza era forte e a pesca exigia manobras precisas para dar bom resultado. Coitado do Guia...

Quando alguma isca artificial trancava em pedras no fundo do rio, o negócio era rapidamente “meter a mão” na linha, pois o barco não conseguiria retornar ao ponto. Prevenidamente, todos tinham luvas de algodão para isto.

O “almoço” era feito nalgum barranco ou areal à margem do rio. Consistia em uma batelada de sanduíches, que no segundo dia já se mostravam enjoativos.

No terceiro dia foi feito um churrasco no barranco, numa razoável estrutura pré-montada. Só que, desta vez, a carne foi selecionada e a “cozinha” pilotada por nosso grupo. Foi o ponto-alto alimentar naqueles dias.

A pescaria, já meio fora de época, exigia muita aplicação e persistência, porque os Salmões estavam na área fazendo suas últimas evoluções, que lembram aquela emergida do Boto. Porém, como não estavam mais se alimentando porque vieram para desovar e morrer, o faziam solitariamente.

Para nós, parecia bem razoável a idéia de capturar e degustar um Salmão, “já que iria morrer”. Entretanto, a legislação Chilena exige a soltura, para que continue o processo de reposição dos estoques e, ao mesmo tempo, a sobrevivência dos novos peixes, que terão nos adultos mortos sua primeira grande e nutritiva refeição para alcançar o Mar.

Em função da época, foi possível encontrar três estágios de Salmões: os alevinos recém-nascidos, os adultos que chegavam do mar (ainda com sua cor típica, gordos e valentes) e aqueles em fase terminal, mesclando a cor marrom com o vermelho-salmão. Estes, já apresentando forte deformação física devido ao jejum de semanas e ao esforço para subir as corredeiras e desovar.

As Trutas Marrons e as Arco-iris também compareciam nas artificiais, porém preferiam as iscas de menor tamanho. O forte dessas espécies é a pesca com Fly, praticada por muitos americanos e europeus que por lá aparecem. Elas atacavam mais nas margens, tanto no Fly quanto nos pequenos Spinners. Capturamos um troféu de 4 kg.

Durante nossa pescaria, uma Truta de bom tamanho surpreendeu. Ela tinha colorarão de Truta e o formato do “bico” lembrava um Salmão. O Piloteiro informou que era uma Truta Salmonada. Pelo que sabemos, esta espécie só existe em cativeiro e sua carne fica rosada como a do Salmão porque recebe ração com carotenóides. De todo modo, não deu para saber exatamente que bicho era aquele, mas que brigava legal, isto lá brigava.

Ao longo de quatro dias, pegamos alguns Salmões de porte médio a grande e encontramos outros em final de carreira, moribundos e com os Urubus aguardando a hora derradeira.

Um exemplar fantástico, acima dos 30 Kg., havia morrido recentemente e foi fotografado como “troféu virtual” por alguns pescadores.

Segundo informação dos Piloteiros, as melhores épocas para capturar Trutas é em Novembro e Salmões, em Fevereiro. Naquelas ocasiões, são centenas de capturas diárias.

Encerrada a pesca, desmontamos o equipamento e nos preparamos para conhecer um pouco mais de Puerto Varas, que fica no caminho para o Aeroporto de Puerto Montt. Realmente valeu a visita, tanto pela boa gastronomia (ali também serviram King Crab) quanto pela localização, arquitetura e organização urbanística da cidade, estrategicamente encravada à beira do Lago Llanquihue.

Depois de quase duas horas sobrevoando centenas de Cerros e Vulcões, a maior parte deles com picos nevados, chegamos a Santiago, onde pernoitamos para o vôo matinal do Sábado.

A surpresa estava engatilhada para disparar às 04:29 hs do Sábado: um Terremoto, fraquinho, com duração de alguns segundos apenas. Mas foi o suficiente para dizer que experimentamos aquela sensação de cama sambando.

O pior estava para acontecer lá no dia seguinte, quanto já estávamos em casa. Um forte abalo de 7,2 graus deixou feridos na região da Capital e forçou a evacuação da população costeira de Valparaiso, por ameaça de Tsunami.

Fora esse episódio, foi uma viagem tranqüila, cheia de novidades, pescaria diferente e contato com novas culturas. Meu GPS registrou 7.641 km, incluindo o aéreo Floripa-Montevideo-Santiago-Puerto Montt e volta.

Para quem quiser assistir a captura do Salmão de 18 kg. que meu Parceiro Edison embarcou com maestria, veja a filmagem de nosso Piloteiro Walter em http://www.youtube.com/watch?v=-4qznTNbFdA.

Duplas de Pescadores: Aido e Aldino, Elo e Osmar, Nilsson e Hermes, Alex e Mauro e Edison e Adão.