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AMAZÔNIA, EM PLENA VAZANTE Imprimir E-mail

No final de Agosto, voamos de Florianópolis a Manaus exatos 3.660 km, com duas escalas (São Paulo e Brasília) e lá chegando, nos hospedamos num Hotel no Centro de Manaus, para o descanso noturno.

 Bem cedo da manhã seguinte e antes do embarque no transfer rodoviário que nos levaria ao Trapiche, fotografamos alguns pontos históricos de Manaus, como o Teatro Nacional de Manaus e o Instituto de Educação Amazonas, ambos fechados porque era Sábado.

Chegando ao Trapiche do belíssimo Hotel Tropical e do moderno Park Suítes Hotel, no Bairro Ponta Negra, aproveitamos a hora livre à beira do rio Negro, fazendo um tour nos requintados jardins e nas dependências externas daqueles hotéis, em cujo atracadouro aguardaríamos o Barco-Hotel Kalua.  

Tudo devidamente registrado em centenas de fotos, embarcamos para a viagem fluvial, que deixaria para trás um visual muito bonito da cidade, do Hotel e da estrutura ainda inconclusa da futura ponte que terá uns 4 km de extensão, ligando Manaus a Manacapuru.   

O rio Negro:

Comparando o atual nível do rio Negro com o que vimos em plena seca - no final de Novembro passado -, percebia-se que alguns metros de água “sobravam” nas margens. Nossa intenção de pescar com a água do rio Negro na caixa foi prejudicada, pois seus diversos tributários ao Norte e Oeste ainda estavam com muita água, resultando em níveis acima da média para o período de final de Agosto e início de Setembro.

Por ironia, tínhamos notícias de que na “perna” Sul do poderoso rio Amazonas, constituída pelo rio Solimões e sua rede fluvial, a seca grassava de maneira avassaladora, gerando estado de emergência em vários municípios, mormente os próximos ao Peru, onde o Solimões nasce a 5.270 metros de altitude. 

Para nós, uma vez lá, o negócio era pescar onde possível e usufruir da Natureza Amazônica, rica em beleza aquática e complementada pela vida animal. Em resumo, seria curtir a aventura, inusitada para a grande maioria dos pescadores.

O Barco-Hotel Kalua:

A tripulação do Barco-Hotel Kalua é composta de Comandante, Mestre, Taifeiro e Mecânico. O atendimento aos pescadores conta com Cheff de Cozinha, Ajudante, Garçom e Arrumadeira, que também lava as roupas. 

O Kalua conta com um barco de apoio, denominado Tempestade, tripulado por um Comandante e por dois Ajudantes, que asseguram toda a infra-estrutura à “nave-mãe”, abastecem e revisam os motores das lanchas, carregam o estoque de combustível e de alimentação, catam iscas, além de abrigar os Piloteiros, à noite.

As Lanchas são chatas de alumínio reforçado, com motor de 30HP e um Elétrico.

Para a alimentação de nosso grupo, pedimos tempero mais “light”, uma canja opcional no jantar e muito peixe nas refeições principais. Degustamos Pirarucu, Piraíba, Pirarara, Tucunaré, Matrinchã, Pacu, Tambaqui e Piranha. Além das bebidas normais, tomamos sucos de Caju, Acerola, Graviola, Açaí e Açaí com Banana. Houve quem levou seu Vinho predileto.   

 

A Viagem Fluvial:

A distribuição dos alojamentos no Barco-Hotel Kalua já estava sorteada e foi tranqüilo cada um dispensar sua tralha para logo retornar ao convés, pois ninguém queria perder as novas paisagens ribeirinhas que se avizinhavam a cada momento. No primeiro dia, navegamos rumo Noroeste, sempre no rio Negro.

Enquanto isto, o Garçom caprichava nos beliscos e na bebida, indispensáveis para aplacar a fome e minimizar o sufoco dos mais de 35 graus daquele quase meio-dia manauara.

A pescaria iniciaria onde o rio Branco encontra o rio Negro, na divisa dos estados do Amazonas com Roraima. Registramos fotos desse “encontro das águas” (menos famoso do que o do Negro com o Solimões), já que o rio Negro tem água escura, cor de chá, enquanto que o rio Branco tem suas águas barrentas. Subimos pescando o rio Branco rumo Norte e depois, entrando no seu afluente da margem direita, chamado rio Xeriuiní, dentro do qual ultrapassamos a Linha do Equador. Foi um momento histórico, com registro fotográfico sinalizando Latitude 00 00 000. Naquele instante estávamos entrando no Hemisfério Norte, depois de navegarmos aproximadamente 500 km de Manaus, em três dias de viagem.

Uns 15 km adiante, pescamos num pequeno filete de água denominado rio Novo. Lugar muito bonito, com a mata ciliar quase sufocando nossa passagem. Entramos em muitos igarapés que mais pareciam cenários de cinema.

Também contornamos enormes áreas de preservação como o Arquipélago de Anavilhanas, com suas 400 ilhas (clique em http://www.overmundo.com.br/guia/arquipelago-de-anavilhanas) e depois, o gigantesco Parque Nacional do Jaú (veja em http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Nacional_do_Ja%C3%BA).

Na região do rio Jauaperi, afluente da margem esquerda do rio Negro, fica a Reserva Indígena Waimiri Atroari, um raro caso de superação da tendência à extinção de comunidades indígenas. (Veja mais em http://www.waimiriatroari.org.br/).     

Na Quinta à noite, uma festa em terra firme: a Equipe do Kalua e a do barco de apoio haviam montado a recepção numa pequena ilha que apresentava uma ainda rara faixa de areia, para a realização do tradicional LUAU. Foi um momento muito bonito, de descontração e de congraçamento tripulação-apoio-pescadores, de farta gastronomia, com muito papo e música. Aproveitamos aquele espaço para bater as fotos das duplas com seus Piloteiros.

Na volta e encerrada a pescaria, navegamos até Novo Airão, cidade que dista 180 km de Manaus por rodovia e a 140 km pelo rio Negro. A propósito, recentemente a televisão mostrou uma “atração turística” daquela cidade: uma senhora que se diz “encantadora de botos” fica brincando com eles no trapiche com o único propósito de faturar uns trocados, mas os empanturra e já está provocando reação das autoridades e dos ecologistas, tal a obesidade dos botos. 

Ao chegarmos a Manacapuru, enorme fila de veículos pesados aguardava sua vez na Balsa de travessia para Manaus. Possivelmente teriam algumas horas de espera...

Como estávamos de Micro, nosso motorista se fez de bobo e entrou na fila dos veículos leves (e se deu bem).

O transporte de cada Balsa é misto, com dezenas de veículos e centenas de pessoas, que ficam alojadas num enorme salão do segundo andar ou ao longo das laterais do Ferry-Boat.  Aquela travessia compreende uns 5 km de navegação.

A Vida Ribeirinha:

Muitas Comunidades Ribeirinhas floresceram ao longo de cada afluente e mesmo às margens do rio Negro e cada qual tem certa autonomia: plantações de subsistência, barcos de pesca, muitas crianças, casinhas sem chaminé (será fruto do vale-gàs?) e várias com antenas parabólicas. Algumas têm posto flutuante de abastecimento de combustível. Dessas “vilas” são contratados os Piloteiros que atuam naquela região de pesca. 

Alguns barcos de vários portes cruzaram por nós. O transporte de passageiros e de carga, inclusive de areia em pesadas Chatas, assegura o contato e o suprimento daqueles lugares ermos. 

A Vida Animal:

No tocante à vida animal, vimos muita variedade. Ao retornarmos ao Hemisfério Sul, um gigantesco Jacaré-açu, beirando 5 metros, desceu furtivamente o rio Xeriuiní à noite, boiando, tranqüilo. O vigia do Kalua o percebeu com o facho da lanterna e o atraiu, imitando seu som característico. Jogou-lhe umas Piranhas. Ele as engoliu, “agradeceu”, seguindo viagem. O encontramos pela manhãzinha, boiado, alguns km rio abaixo. Bati uma foto à distância, pois logo ele entrou na mata. Para comparar: sua cabeça era do tamanho de um fogão quatro bocas... Já o pacífico Boto-cor-de-rosa estava em todo lugar, até onde não deveria (espantava o peixe). A ágil Lontra era avistada, mas não dava tempo de fotografá-la.

Aves das mais diversas matizes e portes, com destaque aos casais de Araras que cruzavam o céu lado a lado, qual amantes inseparáveis. Na beira dos cursos de água, os Martins-pescadores voavam rasante sobre a água para se empoleirar nalgum galho, à espreita de alimento. Bandos de Gaivotas, Garças, Flamingos e Trinta-réis atacavam cardumes de peixes miúdos.  Uma vez dentro da mata fechada, era comum ouvir os Pica-paus produzindo sons com suas bicadas constantes. Pombas-do-mato arrulhavam por todos os lados. Encontramos um arbusto com diversos ninhos de Japuíra, em seu formato de bolsa suspensa. Gaviões, Corujas e Urubus faziam a faxina. Em árvores mais antigas, enormes Cupinzeiros estavam alojados nos troncos. As Borboletas voavam agrupadas e depois, formavam desenhos no chão. Era comum elas pousarem nos Pescadores, atraídas pelo sal do suor.

 O Verde:

Amazônia lembra água e verde! Água tinha até demais e no verde, não decepcionou: a área ribeirinha é composta de um misto de árvores frondosas e outras, de pequeno e médio portes. Realça-se o Buriti da Amazônia, o Jará (pequena palmeira com coquinhos), a Mangueira, a Virola, cuja fruta lembra uma manga de cor salmão, a Orelha-de-pau, a Munguba, parente da Paineira e que também libera algodão, quando suas frutas secam. À margem dos rios, muitas Imbaúbas, cheias de formigas. Palmeiras de todos os portes, com e sem frutas, abundam nas margens. Flores Silvestres e até Orquídeas foram avistadas, entre vários outros tipos de floração de árvores frutíferas que circundam a área de pesca.

A pescaria:

Usamos iscas artificiais para o Tucunaré e as iscas naturais mais comuns para os peixes de fundo eram Piranha, Jaraqui (um peixinho com uma cauda colorida), Barbadinhos, Cascudinhos e outros capturados nos anzóis pequenos. 

Nos locais onde havia um pequeno barranco, a possibilidade das iscas artificiais levantarem algum exemplar era maior. Junto aos Tucunas, ficavam Jacundás, Cachorras, Bicudas e as Piranhas, disputando as iscas artificiais.

A pesca se tornava mais trabalhosa quando a opção era exclusivamente o Tucunaré. Com o alto nível das águas, ele estava no mato. Ouvia-se o estouro dele capturando alimento, mas o acesso para um arremesso seguro era mais complicado, ainda mais quando as varas superavam 1,80 metros. Resultado: fizemos muitos “macacos”, com as iscas artificiais dependuradas nas galhadas, para alegria dos gozadores. Boa alternativa eram os corixos ou igarapés com pouca correnteza, com vegetação vertical. Bastava jogar as artificiais entre os troncos, pedras e barrancos.

Já na pesca de fundo, a coisa era mais simples, pois bons poços e estruturas recomendavam apoitar e fazer ali uma fezinha.  Os tipos de anzóis a usar dependiam do gosto do Pescador: os anzóis normais permitiam a fisgada de frente para o peixe, enquanto que os Circle Hook exigiam um pouquinho de paciência a mais até que o peixão iniciasse sua corrida, já de costas para o Pescador. O bom é que a ferrada destes últimos sempre pega no “canivete”, facilitando a soltura.   

Nessa pesca com iscas naturais, a opção pela proximidade de barrancos era mais produtiva. Ainda mais se havia ali uma pauleira submersa. Por este motivo, preferimos o monofilamento de nylon, menos sensível à eventual abrasão naquelas estruturas.

Merecem destaque três momentos da pesca:

- Quando o Evaldo capturou um Filhote (denominação da Piraíba, quando abaixo de 70 kg.) manuseando um Molinete. O exemplar dele tinha 1,16 metros e brigou feito bicho grande.

- Quando encontramos um trecho do rio Xeriuní que recebia água diretamente do rio Branco (água mais suja) e foi capturada uma dezena de grandes Pirararas, além das que arrebentaram tudo e deixaram os Pescadores na mão. Alguns exemplares tinham mais de 30 Kg. Várias Lanchas lograram sucesso nesse trecho, que também tinha Arraias pesadonas.

- E, no último dia de pesca, quando descemos o rio Negro batendo pesqueiros que havia mapeado em Novembro de 2009.  Nosso compromisso era de nos encontrarmos com o Kalua na foz do rio Jauaperi, onde dispensaríamos a equipe de Piloteiros e o Barco de apoio. Nessa última oportunidade de pesca, cada Lancha foi para um lado e algumas foram conhecer um barranco de Fazenda na margem direita do rio Jauaperi. Só que os botos estavam caçando e isto espantou os Tucunas, para decepção dos Pescadores.

O calor estava forte e decidimos pescar fundeados num ponto semi-coberto pela mata, já de volta ao rio Negro, usando isca de Barbado fresquinho. Foi botar na água e minha carretilha já cantou bonito, momento em que o parceiro Nolasco recolheu sua tralha para facilitar meu manejo, já que o bicho era grande e rápido na descarga da resistente linha monofilamento 0,81 mm . Dos 15 metros liberados para espera, o peixão já havia levado mais uns 50, conforme o relógio digital da carretilha. O problema maior foi que a linha estava no sentido vertical, indicando que havia passado por baixo de algum tronco submerso. Logo liberamos deste, mas havia outro mais adiante, o que nos inspirou a procurar o centro do rio para negociar melhor com o peixe, ainda “desconhecido” porque não sabíamos para onde ele havia corrido.

Mais uma vez, a experiência do Nolasco recomendou que ele “pescasse” minha linha rio abaixo, logo após o tronco submerso. No segundo arremesso ele engatou o anzolão de seu “canhão” na minha linha, retesada pela força constante do oponente. Quando vimos a direção para onde o peixe correu, não houve dúvida de tratar-se de Piraíba, pois rumava rio acima pelo Jauaperi. (Se fosse Pirarara, teria corrido para o barranco e para a pauleira...).            

Naquela altura já estávamos no meio do rio, com o Sol torrando os miolos e eu, totalmente suado. Porém, parecia que agora a luta seria tranqüila e limpa. Parecia...até que uma Piranha abocanhou a isca e junto, minha linha. Frustrado, manivelei a carretilha e constatei a falta de três metros de linha, mordida exatamente onde a isca se deslocara durante a briga. O duro foi contar a epopéia, sem ao menos ter alguma foto ou outra prova, a não ser o fiel testemunho dos dois parceiros de barco. Mais uma vez, o maior fugiu.  

As duplas: Adão e Nolasco; Ribamar e Ricardo; Elo e Miguel; Enio e Evaldo; Firmino e Sidnei; Ildefonso e Rafael; e Nilsson e Vitor.

Resumo:

Se não pegamos a melhor época para o Tucunaré devido à cheia tardia, ao menos pegamos alguns Tucunas e bons peixes de couro, usufruímos de lindos dias, quentes e ensolarados, com apenas uma tarde com rápida e esparsa chuva, seguida de um Arco-íris apaziguador sobre a mata. Capturamos peixes de grande porte, como o Filhote, várias Pirararas e Arraias, além de outros menores como Barbado, Tucunaré, Bicuda, Cachorra, Mandi e Piranha. Trouxemos um batelão de boas fotos, que propiciarão um CD musicado. Assim que pronto, será disponibilizado sem custo, a quem o solicitar.