Home Relatos de Pescarias CÁCERES A PORTO JOFRE – Uma viagem inesquecível

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CÁCERES A PORTO JOFRE – Uma viagem inesquecível Imprimir E-mail

Nas oito pescarias anteriores em Cáceres - MT, havíamos experimentado pescar até a Reserva Ecológica de Taiamã, na seca e cheia. Na meia-estação, pescamos no lado Sul daquele Santuário, também com excelentes resultados.
Para Maio 2010, decidimos partir para algo diferente, abrindo novas fronteiras e com perspectiva também de conhecer outros peixes.

 

O projeto aprovado foi de sair de Cáceres no Barco-Hotel IEIÉ, pescar antes da Reserva e depois descer pescando pelo Rio Paraguai até a divisa com o Mato Grosso do Sul, entrando no Rio São Lourenço e pescar até a foz do Rio Piqueri.

A estimativa era de uma viagem mais curta do que o tradicional roteiro Cáceres-Corumbá, de 680 km., realizado exclusivamente no Rio Paraguai.   

A chegada a Cáceres e as primeiras notícias do Rio Paraguai:

Durante o embarque e a acomodação dos pescadores nos alojamentos do IEIÉ, trocamos impressões com o Capitão Paulo e com alguns Piloteiros que haviam feito o trajeto até a Reserva na semana anterior. De cara, a informação de que o pequeno Rio Formoso, que forma com o Paraguai a enorme Ilha que abriga a Reserva de Taiamã, estava com o fenômeno da Decoada ou Dequada, inviabilizando a pesca no Rio Paraguai a partir de sua confluência ao Sul. Foi água fria na moleira de todos. A boa notícia foi de que havia muito peixe antes da “boca” da Reserva.

O Barco-Hotel IEIÉ:
É um barco bem estruturado para 16 passageiros e 13 tripulantes, incluindo os oito Piloteiros. O Comando é do experiente Capitão Paulo (já foi Piloteiro e sabe tudo de pesca) e seu Mecânico e Co-Piloto é o Paulinho, que faz a manutenção da embarcação. A Cozinha é “de primeira”, bem versátil, com cardápio ajustado às necessidades de cada grupo.  O Cheff Chiquinho garante a qualidade da gastronomia, com seu Auxiliar Lúcio. O Taifeiro Antônio promove um atendimento personalizado.  

As duplas:
Luiz Carlos e Adão; Márcio e Augustinho, Adilson e Echeli, Cássio e Maurício, Mota e Francelino, Ghisi e Bittencourt, Luiz Darci e Hostins, Abelário e Pedro.    

Os Piloteiros:
Hélio "Serpente", Ricardo, Joacir, Bica, Dito, Paulo, Carlinhos, Valdeir "Gordo".

A viagem:
Naquela primeira noite a bordo ganhamos tempo viajando até as proximidades do Rio Jauru, de conhecida beleza, embora num momento de pouco peixe.  Mesmo assim, valeu a manhã que investimos para o conhecer melhor, com suas enormes vitórias-régias, muita vida animal – desde pássaros até centenas de Jacarés e Capivaras. Pouco se pescou, mesmo assim alguns peixes foram nele capturados, enquanto que outras lanchas pescavam na foz dele com o Paraguai.

Ao meio-dia, todos a bordo para seguir viagem rumo aos primeiros pesqueiros com notícia de peixe. Nem pescamos na região do Barranco Vermelho, pois o peixe estava mais adiante. Foi uma tarde bem agitada como aquecimento e até ao final do dia, o resumo mostrou boa produção, com 72 peixes embarcados, a maioria deles liberada. Só não contabilizávamos a famigerada Piranha.

No segundo dia, mais próximos dos pesqueiros da região da Fazenda Descalvado, o bicho atacou legal: 229 capturas, com uma das duplas com 59 exemplares. A dupla vice-campeã em quantidade capturou três grandes Pintados ( 1,12 m. , 1,10 m. e 1,03 m.), além de uma Cachara grande. Foi uma festa geral, pois todos se divertiram muito.  Os peixes predominantes foram 54 Pintados e 45 Cacharas, seguidos de Barbados, Palmitos, Jurupencéns, Cachorras, Dourados, Jurupocas e Armaus. Pescamos também muitas Trairinhas para isca.    

Mexidas no Planejamento:
Naquela noite, atentos ao noticiário e às previsões climáticas, decidimos pescar mais meio-dia na região da Piúva, pois uma poderosa Frente Fria traria chuva e muito frio para a região, prejudicando certamente o resultado técnico da pescaria a partir da tarde da Segunda-feira, mas sem atrapalhar tanto assim a viagem rio abaixo. Decisão correta. Naquela manhã pegamos mais 216 peixes, redimindo algumas duplas que ficaram na rabeira no dia anterior.

Ao meio-dia, iniciamos a passagem da bela Reserva de Taiamã no Deck-Solarium do IEIÉ, degustando um churrasco. Comparado com anos anteriores, ainda tinha muita água para a época e quando chegamos ao Rio Formoso, a confirmação de que a água escura estava contaminando o Rio Paraguai de forma muito violenta. O fenômeno da Decoada consiste na decomposição das plantas que estiveram muito tempo submersas e seu resíduo fica com ph básico, semelhante ao da soda cáustica, matando os peixes  por asfixia. Comprovamos isto ao encontrar enormes Jaús e Pintados moribundos, tentando respirar e outros, já atacados pelas Piranhas. Havia um cheiro forte no ar, confirmando as más condições de pesca.

Como esperado, o clima realmente mudou na região, mas o pior ficou para trás quando Cáceres nos informou pelo rádio que a chuva havia chegado com força e que o frio estava terrível. Em nossa grande navegada rumo Sudoeste conseguimos “driblar” a chuva, mas o frio a bordo deixou nossos Piloteiros obrigados a se vestir a rigor.  Assim, o atrativo daquele trecho foi  usufruir da paisagem da mata ciliar do Rio Paraguai, tão sinuoso que duplica as distâncias físicas.  

Ao entardecer, com menos frio e já com o Sol a pleno, decidimos pescar nos canais marginais, já próximos à Lagoa Uberaba. Só deu Piranha, ainda em conseqüência da Decoada.

Quebrando o desencanto com aquela situação, entramos numa região de muita história e de uma beleza ímpar, porque as montanhas ajudam a represar a água, originando a formação de duas grandes baías - Baía Infinita e Baía do Burro - e três grandes Lagoas da região - Lagoa Mandioré, Lagoa Gaíva e a maior delas, a Lagoa Uberaba, o que nos fez imaginar o quão arrojados foram os primeiros aventureiros no início do Século XVI que contataram com os índios Guatós, do grupo Guarani  – bravos e exímios canoeiros que fizeram daqueles sinuosos meandros verdes sua morada. Para nós, a saudação do por-de-Sol de trás dos montes prenunciava a isolada Serra do Amolar, com seus picos e chapadões de 1.000 metros de altitude e que se estendem por mais de 80 km.

Quem quiser ter uma visão aérea, clique em http://www.ana.gov.br/gefap/arquivos/RE Subprojeto 2.1.pdf e imagine-se navegando no canal principal do Rio Paraguai. Foi o que fizemos, ao vivo.

No final daquele labirinto verde, seguimos pelo único do canal que se presta à navegação rumo Sul, devidamente sinalizado pela Marinha, e nele os primeiros indícios de civilização moderna, com lanchas, antenas de comunicação, edificações e placas identificando o nome da Reserva Natural do Acurizal. Muita vida também ali, com mamíferos aquáticos e Jacarés e colônias de Garças, Trinta-Réis, Tuiuiús e Biguás sobrevoando aqueles atrevidos visitantes.

Em seguida, entramos na Lagoa Gaíva, que confronta com a Bolívia e os Estados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul.

Adiante, uma Estação de Pesquisa Avançada, ao sopé do ponto mais alto e lindo do Amolar e ao lado da Baia do Burro. A estação serve de base para o intercâmbio de estudantes, com vistas a formar lideranças conservacionistas.

Até ali havíamos navegado 441 km. pelo Rio Paraguai, que deixaríamos 15 quilômetros adiante para conhecer o Rio São Lourenço, surpreendentemente mais largo que o Paraguai, embora mais raso, com apenas 5 a 6 metros no centro da calha. Quem seguir ao Sul pelo Rio Paraguai, vai vê-lo reforçado pelo seu principal tributário, a partir dali.

Seguindo pelo São Lourenço por duas horas e passada a reserva ambiental do Parque Nacional do Caracará, liberamos as lanchas para a pesca, já que o pessoal vinha “no seco” há tempos.

Possivelmente devido ao frio da véspera, os peixes não estavam muito animados. Mesmo assim, além de uma grande Cachara e de vários pequenos exemplares de Barbados, Palmitos e Jurupencéns, foi melhor do que ficar simplesmente navegando.

Chegando a Porto Jofre, um susto: cadê a “cidade”? Na verdade, não existe cidade, apenas um conjunto hoteleiro luxuoso no final da Transpantaneira com o nome de Porto Jofre Pantanal Norte, com pequena pista para taxi aéreo, grandes lanchas e muitos clientes.

Nosso objetivo náutico final era conhecer também o Rio Piqueri, poucos quilômetros rio acima. Lugar bonito, famoso por abrigar os únicos Tucunarés do Pantanal. Notícias de um mês antes davam conta de vários Tucunas e muitos peixes de couro de bom porte. Porém, um Barco-Hotel de Cáceres estava ali por alguns dias e não encontrou resultado significativo. Mesmo assim, batemos todas as opções de pesca até a Quinta-feira, último dia de pesca. Tinha muito pássaro naquela região e o destaque ficou por conta de um enorme Ninhal de Garças e de Colhereiros que fica ao lado de uma Pousada. Pescamos diversos Barbados, Palmitos e alguns Barbados-Pintados (estes, novidade, com certeza).      

Também nosso objetivo secundário – o turismo pioneiro – estava alcançado, restando ainda o grande desfecho, com a travessia da Estrada Transpantaneira.

Na Sexta-feira, para concluir a empreitada, acordamos cedinho e após o desjejum, carregamos o ônibus e o reboque e depois, fizemos o “encerramento” da jornada, com os devidos agradecimentos à excelente equipe do IEIÉ, a premiação aos captores do maior exemplar e as despedidas.     

Como toda a viagem, também a viagem terrestre foi no horário previsto, já que não queríamos perder nada por “falta de tempo”.

A Transpantaneira:
Tem um desenho bem retilíneo em seus 147 km. de extensão e com 120 pontilhões de madeira e dois de concreto. Nos três biomas que a abrigam, iniciamos com uma região muito alagada, cheia de Jacarés, Capivaras, Lontras e Ariranhas. São 40 km. com muitas aves predominantes são Garças,  Biguás, Papagaios, Tuiuiús, Cabeças-Secas, Baguaris, Joãos-de-Barro e Anhumas.

Na segunda parte, a  mata ciliar é mais fechada e a terra mais seca, habitat ideal para Onças, Veados  e Jaguatiricas. Nela vimos Acurizais, Perobas, Bacuparis, Imbaúbas, Cambarás e outras árvores de todos os portes.

No trecho final, Fazendas e Pousadas dominam o cenário, além do Rio Pixaim.

Para bem usufruir dessa maravilha, fizemos umas 10 paradas, ora para fotografar e filmar bichos, ora para registrar a cristalinidade das águas que lembram aquelas de Bonito (MS). Até uma Ema foi fotografada.

Pouco  antes de Poconé, a parada técnica para degustar um Pastel feito na hora.

A partir de Poconé, asfalto da BR-060 até o trevo com a BR-070, já nas cercanias da região metropolitana de Cuiabá.

Chegamos à Churrascaria em Várzea Grande pelas 14:30 horas e antes das 16 horas já fizemos o Check-In para nos livrar da bagagem mais pesada.        

O que vimos:
Da Pré-história: A região é cheia de sítios arqueológicos que datam de mais de 3.000 anos, com cerâmica, conchas e ossos humanos, resquícios de diversas tribos indígenas que ali habitavam .

Da história mais recente: Fazendas Descalvado e Barranco Vermelho, que tinham importante papel econômico e social no abate e processamento de carne bovina.  

Animais de pequeno/médio porte: Além de dezenas de espécies de Borboletas, muitas de Aves: Mutum, Anhuma, Narceja, Tucano, Papagaio, Periquito, Socó, João-de-barro,  Aracuã, Jacú, Pomba, Pica-pau, Martim-pescador, Mergulhão, Bem-te-vi, Curiango, Coruja, Galo-da-campina,  Cabeça-seca, Quero-quero, Canário, Pintassilgo, Rolinha, Juriti, Coleirinho e Pardal, entre outras.  Destaque para as aves de rapina: várias espécies de  Gavião, a Coruja, o Caracará ou Carcará e o Urubu, que juntas, têm a função de “limpar” o ambiente.   

Animais de maior porte: Além dos Tuiuiús e da Ema, vimos Bugio, Macaco, Capivara, Jacaré, Lontra e Ariranha (ou Lontra Gigante).

Plantas: Pacovas, com suas folhagens semelhantes às bananeiras, Acuri (o Acurí era a palmeira dos índios Guatós), Bacupari, Tucum, Vitória-Régia, Ipê-roxo e Ipê -amarelo, Carandá, Cambará, Aboboreira, Aguapé, Embira, Bambu, Coqueiro, Palmeira, Goiabeira, Araçá e Cipós de todas as bitolas.   

Se a presente listagem não esgota o que vimos, ao menos lhes dará uma boa idéia do que é conhecer mais de perto nosso precioso Pantanal.

Quem apenas pescou em Cáceres, Corumbá, Porto Murtinho ou noutro pesqueiro famoso não pode dizer que conhece o Pantanal. É preciso investir numa jornada dessas para ter uma idéia bem mais abrangente do potencial de pesca e de turismo daquela região.   

É uma viagem que exige uma logística mais complexa porque implica em sincronizar dois grupos consecutivos. Numa semana um embarca em Cáceres e na outra, o segundo grupo embarca em Porto Jofre.

Essa mesma viagem de ida será novamente realizada em 17 de Junho de 2011 e será mais fantástica ainda (época de floração, sem Decoada, pescando também no Rio Paraguai ao Sul da Reserva de Taiamã). O espetáculo maior naquela época será quando as milhares de Aboboreiras estiveram florindo, o que perdurará até a Primavera. E os muitos poços do Rio Paraguai que vimos no caminho prejudicado deverão render bons bocudos, em tempos normais.  

Resumo:
O Barco-Hotel navegou 613 Km. de Cáceres à Fóz do Rio Piqueri, passando por vários biomas diferentes e cobrindo boa parte do Pantanal brasileiro que tem 140 mil km2, equivalentes a 2/3 de todo o Pantanal sulamericano (Bolívia e Paraguai tem os outros 70 mil km2).    

A viagem de seis dias rendeu quase 600 peixes capturados e destes, muito peixe liberado (isto que deixamos de pescar um dia e meio devido à Decoada).

Temos um acervo de aproximadamente 2.500 fotos e muitos filmes, que renderão a edição de um CD musicado.

Até a próxima!