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O RIO PARAGUAI E A CHEIA FORA DE ÉPOCA Imprimir E-mail

        A pescaria para Abril de 2009 começou a ser preparada meio ano antes.  Tínhamos em mente pescar no período ideal da cheia, isto é, quando as águas começam a retornar ao leito do Rio Paraguai. Esse precioso momento é ímpar, visto que todos os predadores ficam nas margens e nas entradas de corixos aguardando a volta de pequenos peixes, sua principal forragem.

         Em Cáceres, é tradição considerar o reponto de alta do Paraguai em torno do dia 19 de Março (dia de São José). A partir daquele “marco histórico”, acontece o final das chuvas e a conseqüente redução gradual no nível do Rio.

 

        Só que no final de 2008 não choveu o esperado, causando preocupação às autoridades e determinando a suspensão por 30 dias no reinício da atividade pesqueira.

 

        Surpreendentemente, a partir de meados de Março, a chuva passou a ter presença constante, a ponto de registrar as maiores marcas dos últimos 30 anos da história de Cáceres, para aquela época.

 

        Chegou o dia 3 de Abril, hora do embarque dos 16 pescadores, rumo a Cuiabá. Foi uma viagem aérea tranqüila, com conexão em São Paulo. Depois, o transfer rodoviário até Cáceres, direto para o Barco-Hotel IEIÉ, que nos aguardava de madrugada com tudo pronto para a descida pelo Rio Paraguai. Foi servido um rápido lanche ao grupo. Os apartamentos estavam prontos, com identificação dos nomes da dupla + nome do piloteiro nas portas, para facilitar a comunicação durante os dias de convívio. Enquanto o BH descia o curso do rio, os pescadores aproveitaram para colocar o sono em dia.

 

        Proximidades da foz do Rio Jauru, primeiro pesqueiro importante da descida, o IEIÉ fez uma parada para que todos pudessem usufruir do principal motivo da viagem: pescar. Foram registradas várias ações de Pintados, Cacharas, Palmitos, Pacus e Barbados. Os Dourados do Jauru estavam pequenos. 

 

        Todos de volta a bordo, foi servido o tradicional petisco de peixes, seguido de lauto almoço. Alguns tinham levado vinho, mas o carro-chefe foi mesmo a cerveja, com opção da “sem álcool” e refrigerantes diet e light para os abstêmios ou que obedeçam regime alimentar.

 

        Depois do almoço e para fugir do forte calor, um justo descanso, embalado pelo suave movimento do BH e afagado pelo indispensável ar condicionado. A movimentação de pesca retomava pelas 15 horas, indicando o início do “segundo turno” diário.  

 

        Novos pesqueiros foram sendo testados e cada um acrescentava outros peixes à lista, que culminou com nada menos do que quinze espécies, incluída a famigerada Piranha, que nem era computada nos controles quantitativos.

 

        À noite, o IEIÉ ficava amarrado às árvores ribeirinhas, sendo direcionada a antena da TV 29¨ para acompanhar o noticiário.

 

       Interessante notar que a cheia provocava também correnteza no sentido lateral, rumo aos corixos, o que prejudicava a localização de Pacus e de Dourados, que sabidamente estavam no meio do mato, catando o farto alimento. As Piranhas eram evitáveis, pois atuavam apenas em pequenos trechos. Bastava mudar de lugar em alguns metros e elas paravam de atacar.

 

       A intensa vegetação flutuante formava um tapete que ocultava o que antes eram “praias”. À noite, um paredão verde e vertical dava um ar meio fantasmagórico ao infindável horizonte, mostrando trepadeiras oportunistas cobrindo as árvores, com gavinhas as escalando até o mais alto, criando um espesso manto verde que se estendia até o solo.

 

       Poucas árvores escapavam desse “abraço verde”. Entre elas, a Aboboreira, a Plataneira, o Biguazeiro, o Buriti e um destaque para a Palmeira Carandá ou Palmeira d`água, com seu formato em leque lembrando um grande ventilador. Ela é parente da Carnaúba, sendo totalmente aproveitada: o tronco vai para a construção civil, as folhas para confecção de chapéus, roupas e telhados, as raízes para chás e as frutas para alimento dos pássaros ou como isca na pesca.   

 

       Com a falta de “praias de areia”, as Aves se mostravam em grupos menores, com exceção dos Biguás, que atopetavam os Biguazeiros. Vimos Japuíra e o colorido João Pinto em seus ninhos suspensos lembrando pequenas sacolas, Tuiuiús fazendo a festa com as Tuviras que os pescadores lhes jogavam, Cabeças-Secas, que se assemelham a um pequeno Tuiuiú, Garças, Colhereiros e Narcejas catando alimento nos baixios, Mergulhões e Martins-Pescadores de olho nos peixes, Pica-Paus detonando troncos e até o Quero-Quero - ave símbolo dos Pampas sulinos e escandaloso vigilante das Fazendas - elevando vôo no campo semi-alagado. De vez em quando, Urubus e Gaviões, hábeis na rapinagem, sempre à espreita do alimento.

 

       À medida que o Barco-Hotel se afastava da cidade, menos pescadores eram avistados. Os núcleos com civilização se limitavam ao Porto Simão Nunes, a algumas Fazendas à margem do Rio Jauru, ao Hotel Baiazinha, aos raros acampamentos de pescadores artesanais, ao Barranco Vermelho e suas ruínas do que já foi um próspero abatedouro, e às Fazendas Morrinho e Descalvados, esta última tombada como Patrimônio Histórico por seu significado econômico no final do Século XIX e até a metade do Século XX, quando produzia sabão e charque. Atualmente ostenta as ruínas da casa principal, da escola, da agência de correios e (já restaurada), da igreja de São Brás (cfe. pág. 214 da TRAVESSIA DO PANTANAL, coletânea em forma de roteiro turístico de Luís Moretto Neto e Maria Tereza Büchele, da UFSC, gentilmente cedida por Artemio Zanon, revisor da obra e pescador de nosso grupo). No final de nosso roteiro de pesca, chegamos à pujante Fazenda Jatobá, proximidades da Estação Ecológica de Taiamã, santuário ecológico constituído de duas ilhas numa área alagada de mais de 11 mil hectares, protegida pelo IBAMA.

 

        Já no caminho de volta, nas proximidades do Morro Pelado, desembarcamos num acampamento de artesanais e lá fotografamos um bando de Cardeais e alguns Mutuns, ciscando no solo.

 

       Os bichos maiores estavam na mata e eventualmente se avistava alguma Capivara, Lontra ou Jacaré.

 

        No Rio, os raros poços eram sinalizados pelos camalotes de aguapés que ficavam girando sem rumo e o peixe tinha que ser “garimpado” na rodada, de vez em quando prejudicada por alguma galhada submersa. Mas, é exatamente aí o habitat favorito dos peixes-de-couro. Portanto, o negócio não era ficar com pena dos anzóis e das linhas e sim, adotar a máxima da economia: maiores riscos podem gerar maiores lucros.

 

       O detalhe maior da pesca ficou por conta dos Pacus, normalmente pegos durante a cheia por meio de um sistema chamado de “na batida”, com um varejão de bambu e isca de massinha com groselha ou mesmo com frutinhas duras como o Tucum e o Coquinho. Desta vez, em alguns lugares o danado tinha preferência pelo Queijo e noutros, pela Calabresa. Quase acabamos com o estoque desses alimentos que o IEIÉ sempre leva para nutrir os passageiros. Curiosidade: com as iscas de Queijo pegamos também Fidalgo e Mandi, pequenos bagres da água doce. Outro modo de pesca do Pacu na época da cheia é na rodada com equipamento médio, usando como isca a Laranjinha selvagem.

 

      Os Barbados, sempre bons de briga, estavam por todo o lado, sendo que alguns tinham bom porte. Contrariando a expectativa, deu pouco Palmito e Jurupencém, também chamado de “bico-de-pato”.

 

       De volta ao Barco-Hotel, hora da pesquisa das capturas e das solturas. A estatística diária era obrigatória, para aquilatar a produtividade de cada dupla e permitir avaliar a piscosidade de cada pesqueiro. A cada dia, alguma novidade. Os peixes embarcados eram acondicionados nos freezers, após identificação. Era normal soltar uma dezena de peixes, a cada dúzia capturada e assim chegamos a contabilizar 352 capturas em apenas cinco dias de pesca. Noutras épocas, em viagem de seis dias, passamos a Reserva  e a quantidade total (sem contar a Piranha) superava facilmente os 400 exemplares. O Rio Paraguai é muito generoso e diversificado.

 

         A navegação é muito tranqüila por se tratar de um rio perene, sem quedas bruscas e sem estruturas traiçoeiras como pedras e troncos. Para maior segurança, cada Lancha tinha um Radinho para contato com os demais e graças a eles, mantínhamos o pessoal informado sobre pontos de captura e de deslocamentos para outros locais.

 

        O clima foi muito camarada para conosco, tendo chovido rapidamente no primeiro dia e um pouco também no penúltimo, durante o horário do almoço, não prejudicando em nada nosso projeto na viagem de retorno de "bater" os pesqueiros rio acima.

 

       A disputa pelo troféu de maior peixe estava aparentemente definida a favor do Maurício, desde o terceiro dia, com dois belos Pintados. Mas, como em qualquer campeonato, a coisa só fica decidida quando o árbitro der o apito final. E isto aconteceu logo após o Renato ter capturado um Pintadão de 17,5 kg., com 1,18 metros, no último dia. Foi um festival de merecidas fotos.

 

        De retorno ao porto, fizemos o último pernoite à bordo para encarar a viagem de regresso ao lar, com conexão em Brasília. E já tem gente querendo voltar lá para o "tira-teima"...

 

       As duplas: Firmino e Luiz Darci, Nolasco e Adão, Hermes e Rodolfo, Cássio e Maurício, Edgar e Celestino, Renato e Clóvis, Zanon e Medeiros, Giovanni e Ângelo.